O campo está cada vez ficando mais chique e a cidade cada vez mais perigosa.
Quem cuidar do verde, dos animais e da terra com zelo está cuidando da sustentabilidade da humanidade.
As possibilidades de renda e de realizações no espaço rural se ampliam a cada momento.
Num mundo global, não há nada que não possa ser visto, comprado, conhecido, sentido na cidade que não possa chegar também ao campo, tal o avanço que estamos experimentando nos meios de comunicação, especialmente através da internet, telefonia e televisão.

Os verdadeiros empreendedores envolvidos nas atividades agrícolas sabem que o tempo difícil e de sofrimento já passou. Vivemos hoje o tempo do agricultor que sabe o que quer, se interessa pelas oportunidades que o mercado oferece, vai em busca de tecnologia e assistência adequada ao seu negócio, associa-se a cooperativas e entidades que defendem o setor e sua categoria profissional, trabalha e recomenda sua atividade com orgulho no seio da sua família e para quem mais interessar.

Mas, há casos e casos em que os mais velhos desestimulam os mais novos a continuarem no campo.
Quando a mãe diz: “minha filha, vai embora pra a cidade, já chega a mãe sofrer o que sofreu; vai embora, lá vais arrumar coisa melhor pra fazer; quem vive na roça sofre muito mais”.
Pior ainda é quando o pai confessa não incentivar o filho a continuar na propriedade com medo deste mais tarde não gostar ou não se dar bem e ele se arrepender da recomendação que fez.
Tive uma conversa com um agricultor que me revelou exatamente isto: se eu incentivar meu filho a ficar na agricultura e mais tarde ele não gostar, se sentir infeliz?
Fiz a ele esta observação: como pode um pai ter receio de recomendar ao filho aquela atividade que possibilitou criá-lo, deu a ele a condição de estudar, que ele mesmo não teve? Será que se o filho escolher outra profissão será mais digno e não se arrepender mais tarde também?
Precisamos despertar nos homens e mulheres do campo o orgulho de ser agricultor e a coragem de recomendar isto aos filhos, pois a sucessão verdadeira deve se iniciar dentro de casa.

Alguns pontos para pensar sobre a sucessão no campo:

  1. Enquanto os jovens padecem o preconceito e recebem críticas pelos caminhos que estão tomando na sociedade, a terceira idade está desfrutando (merecidamente e até com certo atraso) os benefícios de políticas públicas que são estruturadas para o seu atendimento. Toda cidade por menor que seja tem um centro de convivência do idoso, evento quase toda semana, equipe de trabalho montada com recursos públicos, grupos de voluntários. Vejo isto como merecimento após tantos anos de trabalho, agruras e lutas por direitos numa atividade agrícola empírica baseada na força braçal.
  2. Não percebemos muito, ou quase não sentimos iniciativas e estruturas concretas em favor dos jovens, a não ser o livre caminho para “as baladas”. Como fazem falta os clubes de serviços, as pastorais, os encontros e retiros, enfim, os trabalhos e movimentos envolvendo os jovens do campo e da cidade.
  3. Enquanto jovens são observados com desconfiança e idosos como olhar da “feliz idade” parece-me que estamos produzindo um desequilíbrio, tanto no campo quanto nas cidades.
    Muitas pessoas ao observarem jovens que passam desferem críticas do tipo: “essa juventude está perdida, a droga está tomando conta, não obedecem mais ninguém, só pensam e fazem bobagem, a gurizada não quer mais trabalhar, roça nem pensar para eles, etc.”, e por aí afora.
  4. Percebemos que a cada dia a tarefa de educar fica mais complexa, especialmente no seio familiar, da propriedade e nas escolas. Quando os pais não se preparam para interferirem no processo de ensino-aprendizagem dos filhos e filhas, a consequência é o desequilíbrio nesta relação.
  5. Os filhos apreendem cada vez mais informações do mundo contemporâneo, enquanto seus pais (que muitas vezes não se atualizam) ficam para traz. Perdendo a linguagem do seu tempo, perdem também o diálogo. Perdendo o diálogo, perdem também o acesso e o controle educativo. Assim, passa a ser “cada um para si e Deus para ninguém”. A agricultura precisa ser vista não apenas como um negócio, uma exploração, mas como um empreendimento e uma filosofia de vida.
  6. Enquanto o jovem caminha só, a terceira idade caminha em grupo. É mais fácil trabalhar com os velhinhos, pois eles se satisfazem mais facilmente, são mais compreensíveis, via de regra, e têm um projeto de vida solidificado, mesmo com alguma dificuldade, às vezes, especialmente em função da baixa renda na fase de aposentadoria. Mas o certo é que os mais velhos que acertaram (até mesmo aqueles que erraram), não têm tanta expectativa e sonhos quanto os jovens.
  7. JUVENTUDE CRITICADA, TERCEIRA IDADE ELOGIADA. POR QUE ISTO?
    Vamos investir nos jovens tão alegremente quando preparamos os trabalhos e eventos para a terceira idade, a força da vida e a longevidade humana.
    Na busca da realização de projetos do tempo de em que era jovem, continuemos agindo sempre com a mesma intensidade e sonhos. Agora, motivados pelos exemplos que temos dos projetos e ações em favor dos mais velhos.
  8. O campo está envelhecendo, ou é o nosso pensamento que não rejuvenesceu?
    Achamos que não há mais jovens para serem envolvidos nos sindicatos, nas cooperativas, enfim, em instituições e empreendimentos voltados para o meio rural (e para as cidades) por que paramos de olhar a juventude como uma solução. Quando começamos a olhar uma determinada faixa etária como um problema ela se torna um peso. Lembro-me que ser idoso era ser velho e esquecido há bem pouco tempo. O que se verifica agora? Pessoas chamando a velhice antes sofrida de feliz idade, idade da sabedoria, idade da felicidade…
  9. Nossa juventude é brilhante! São nossos filhos e filhas que vão tornar o mundo mais sustentável. Deixemos a eles uma prova de amor inconteste, não apenas mensagens gravadas para eles lerem, mas uma nova pegada no mundo que prove que nos amamos tanto que inclusive nos preocupamos em deixar o melhor dos mundos para eles. Cuide de sua propriedade, investindo nela não apenas dinheiro e comprando equipamentos, mas estruturando-a e zelando dela para que fique um “cartão postal rural”, um lugar de gente feliz, com renda e vida de qualidade.
    Passei por isto e não tenho dúvida: A SUCESSÃO NO CAMPO DEVE SER INICIADA DENTRO DE CASA.

*Ainor Lotério – Professor, Palestrante especialista em Motivação Humana (com Agrosofia).