Para enriquecer ainda mais o Encontro de Mulheres Cooperativistas, foi realizada uma entrevista com o Professor Ainor a respeito do papel da mulher na agricultura familiar, sucessão, espírito de liderança e família. Os resultados desse jogo de perguntas e respostas são traduzidos em conhecimento, trabalho árduo, dedicação e carinho do Palestrante pelo público e sua preocupação com a agricultura familiar. Confira abaixo essa preciosa entrevista.

Como será a palestra? Quais os pontos que serão abordados?

– Será uma palestra instrutiva, animada e musicada, com o objetivo de sensibilizar as mulheres para a importância do seu papel na família atual, na cooperativa e na sociedade. Falaremos do sentimento de pertencimento, imaginação e sensibilização dos sentidos para uma vida de significado.
– Dentre os pontos a serem destacados estão: a inteligência coletiva da mulher, que já se apresenta no seio dos lares, e sua relação com o cooperativismo; os sinais de evolução das mulheres no aspecto da formação, da participação social, da emancipação, da longevidade, do empoderamento em si. Saber o que se cultiva e o que se cria, o que se gasta e o que se ganha, o que se planeja e o que se define como meta de realização familiar em sua propriedade agrícola. Valorização, estímulo, motivação, resiliência e superação de entraves, para a busca de objetivos e metas. Do papel à transformação em agentes de desenvolvimento sustentável da propriedade familiar.

Qual o papel da mulher nas propriedades rurais familiares?

– Essa pergunta por si já denota a necessidade de se investir no seio da família, eu diria que a partir do ventre, e em nossa propriedades, bem como em parceria com as cooperativas, sobre o significado e realização que o campo pode dar às famílias que envolvem seus filhos e se dedicam ao sem pleno desenvolvimento. Ir além de administradoras do lar ou donas de casa (como sempre foram consideradas), passando agora ao nível de parceiras do planejamento e da gestão da propriedade. Motivar a família para seu envolvimento com a cooperativa, numa salutar parceria dialogada com o esposo e a família.  As mulheres podem melhorar as escolhas nas propriedades, pois os caminhos que trouxeram as gerações de agricultores até aqui, não servirão para conduzir os jovens doravante. Escolher novos caminhos, para acertar o alvo da realização na propriedade é fazer sucessão. Isso será feito de maneira mais condizente com a família se a inteligência feminina entrar em cena. Quando o homem não age só, mas em família na propriedade, a vida fica melhor para todos.

Acompanhando essa onda de empoderamento feminino e discussão sobre o conceito de feminismo, você tem notado uma mudança no lugar que a mulher ocupa dentro das famílias rurais?

– As mulheres dão respostas aos estímulos de formação e desenvolvimento muito rapidamente. Elas vivem mais que os homens cerca de oito anos, são empreendedoras, estão sempre ao lado dos filhos e filhas em tudo. Como acompanho os trabalhos com mulheres a cerca de trinta anos, desde os tempos de extensionista rural, percebo também fortemente nos trabalhos e eventos das cooperativas, que as mulheres sempre se fazem presentes, se envolvem fortemente em temas de geração de renda, exercício de liderança, trabalhos comunitários, participação em conselhos (ainda pequeno), dando um brilho em tudo o que botam a mão e a inteligência. A mulher não se empodera para passar à frente do homem, mas para que todos possam caminhar com ela, pois seu desejo é que a vida seja um espetáculo familiar, não unicamente pessoal. Coração de mãe sempre cabe mais um, é cooperativo e tem inteligência social. Isso por si só lhes confere poder. Todavia, quando se soma isso a sua busca por formação, seu poder de realizar aumenta.

Quais são as características das mulheres líderes/empreendedoras?

– As mulheres que são lideres empreendedoras participam mais, trabalham decididamente naquilo que dá resultado envolvendo gente, praticam a empatia (colocam-se facilmente no lugar dos outros), trabalham muito e lideram pelo exemplo. Elas não se preocupam em competir com os homens, pois sabem cativar seus espaços, assim como sempre brilhantemente o fizeram no lar e nos espaços que atuavam e atuam. Elas se cuidam mais que o comum, investindo em formação e saúde. Não observam apenas o empreendimento frio em si, mas entendem o espírito que o move, sendo por isso possuidora de um espírito que anima e conduz nos momentos mais difíceis da empreitada ou empreendimento.
– Sabem olhar para dentro de si e para fora dos seus empreendimentos, dando mais vida à família, propriedade e cooperativa. Isso é fazer da vida um espetáculo não para ser apenas assistido, mas participado como ator e atriz.

A sucessão familiar é um desafio que nunca sai de pauta. Você pode dar algumas dicas que podem facilitar esse processo?

– A sucessão rural não envolve apenas a renda, mas todas as coisas e amores que contemplam a vida. E nisso as mulheres são especiais, pois lançam mão da inteligência afetiva e emocional, além de demonstrarem boa capacidade de gestão financeira. Assim, é fundamental a participação das mulheres num programa de sucessão rural na propriedade, uma vez que elas são exímias e naturais incentivadoras dos filhos e filhos, quanto às buscas que os mesmos realizam em favor da realização profissional, relacionamentos e sonhos de felicidade. Quem irá proteger nossos filhos e filhas se não os prepararmos para empreenderem com sucesso nas nossas propriedades rurais?
– Sucessão se faz com gradual passagem de responsabilidades de pais para filhos, integrando a família no processo de trabalho, tornando cada filho ou filha num aprendiz das novas técnicas de criação, cultivo e gestão, mostrando constantemente os resultados e fazendo contas juntos.

Quando iniciar a sucessão rural empreendedora?

– Iniciar cedo, uma vez que um profissional de qualquer área hoje em dia precisa estudar muito para ter sucesso, o que não é diferente no caso da agricultura (isso valia para o passado, onde a prática apenas era suficiente, quando o nível tecnológico era baixo e os filhos eram muitos e hoje são poucos. O certo é que o celeiro de sucessores está ficando cada vez mais escasso).

– Identificar os jovens com aptidão para o negócio da família e definir bem cedo, com a anuência de todos, levando-os ao consentimento e imaginação na atividade.

– A diversificação da propriedade, outrossim,  possibilita que um filho goste disso e outro daquilo, ou seja, uma atividade ou criação que pode atrair um não atrairá o outro. Quanto mais diversificadas as atividades numa propriedade maiores as chances (temos verificado em nossa longa experiência na área inclusive em trabalhos com jovens rurais).
– Criar, desenvolver e manter uma mentalidade sensibilizadora para a sucessão não apenas como fator de geração de renda, mas como ideal de vida também.
– Implantar uma estratégia familiar, associada à uma instituição associativa ou representativa dos agricultores ou política pública, de modo a não se afastar da ideia da sucessão, para evitar os modismo momentâneos, muito próprios da sociedade atual, onde quase tudo é fruto da correria.

Se você tiver algum ponto que ache importante acrescentar, pode ficar à vontade:

– A mulher é um ser que brilha facilmente no seio do lar, nas organizações, corporações e na sociedade. Sempre que a ela for dado voz e vez o resultado logo é notado. No entanto, há sempre uma distância entre a retórica e a prática no campo da atuação da mulher, ou seja, há muito elogio, mas nem sempre espaço. O bom desse momento em que estamos vivendo, quando o tema empoderamento toma cada vez mais corpo, é que as mulheres se encontram cada vez mais preparadas para o seu papel na sociedade, uma vez que empoderar-se significa criar uma consciência da sua situação e socializar o seu poder entre os cidadãos, conquistando assim a condição e a capacidade de participar. Isso, mais do que inclusão social e exercício da cidadania, é realização humana plena, é felicidade.
A propriedade agrícola familiar existe para o que, além da produção de alimentos  e geração de renda?
– Garantir os recursos naturais e o futuro da família com justiça social. Deixar um legado forte de SUCESSÃO FAMILIAR, tanto é que filhos se casavam com a garantia de um pedaço de terra, enxoval básico, máquina de costura, etc, vindo da casa dos pais. Caso a família não dispusesse de todos os recursos para casar muitos filhos, era solicitado um tempo para o filho ou filha seguinte, de modo à família se recompor financeiramente.