*Ainor Francisco Lotério 

Quem não deseja uma vida longa, bem vivida e feliz?

“Todos desejam chegar à velhice; e quando chegam a ela, acusam-na” (Cícero (106-43 a.C.).  

O que realmente acrescenta alegria de viver e felicidade à nossa velhice?

Quanto mais longeva se torna a humanidade, mais se preguntará sobre a qualidade de vida na terceira idade! Assim, “a velhice é prêmio para uns e castigo para outros” (Marquês de Maricá).

Vivemos mais hoje que nossos vós viviam e nem sempre sabemos o que fazer com essas décadas de anos que ganhamos a mais para viver.

Precisamos de atitudes novas, pois uma vida longa e feliz é uma conquista possível para quem tem consciência sobre o uso dos recursos tecnológicos, das potencialidades corporais e dos mecanismos naturais do ambiente externo, hoje disponíveis aos seres humanos. A conquistamos mais facilmente se não tivermos medo de apreciarmos a parte escatológica da nossa existência. Como viver muito sem envelhecer, sem parecer velho e ser enquadrado nessa faixa etária? Pessoas que têm vergonha de serem chamadas de velhos, que desejam serem mocinhos e viverem em estado de juventude sempre estão se autoenganando.

Envelhece com mais felicidade quem aceita a sua idade, mas continua pensando jovem. Isso é possível devido ao fato das células neuronais não criarem rugas, não ficarem flácidas, uma fez que vão se reduzindo, mas nascem novas até certa idade. Segundo publicação da revista Scientific American, neurônios jovens se aproveitam das experiências dos neurônios mais velhos.

“Como crianças novas na vizinhança, neurônios recém-formados tentam avidamente se enturmar com o grupo local. Logo após o nascimento, as células seguem rapidamente para onde está o agito e passam a tentar se ligar com os neurônios maduros que compõem as conexões já estabelecidas.”

Certo dia um jovem, após uma palestra me abordou sobre um tema tratado, de maneira direta me falou: “Professor, mas isso é pensamento de velho, não é?”. Preocupado, voltou-se para mim e me disse: “O senhor me desculpa, minha intenção não foi chamá-lo de velho!”. Disse-lhe eu sorrindo: “Você não precisa se preocupar comigo. Não me ofendi em ser chamado de velho. No entanto eu gostaria de saber se você já imaginou viver o suficiente para parecer velho e ter a alegria de alguém pronunciar face to face isso é coisa de velho?”. Com rubor facial ele concluiu: “Realmente nunca havia pensado nisso. De hoje em diante vou pensar e agir diferente. Quero ser um idoso que demonstre alegria de viver!”.

Como envelhecer se não desejamos ficar velhos? Como ser exemplo para os mais novos s tornamos a velhice uma fase da vida sofrível?

Onde a dor impera e a cobrança por consideração da parte dos outros for maior do que o valor que damos a nós mesmos não pode haver sentimento de felicidade na terceira idade.

Sei que há situações de vida degradante e de idosos que não dispões do mínimo, para uma vida condizente nos seus últimos anos, ou seja, na sua escatologia existencial.

Não se preocupe que não estou falando do gosto de morrer, mas do genuíno amor pela vida. A escatologia é parte da teologia e filosofia que trata dos últimos eventos na história do mundo ou do destino final do gênero humano, comumente denominado como fim do tempos e das coisas, o que aqui trago para o mundo de cada ser humano.

Não se preocupe que não é pensamento mórbido, mas encorajador. Pessoas que utilizam todos os seus recursos físicos, mentais e espirituais em prol da sua existência na face da terra aumentam a sua chance de viverem mais e com uma maior percepção de felicidade. Segundo algumas pesquisas e especialmente uma realizada pelo Centro Nacional de Adição e Abuso de Drogas dos EUA (Revista Superinteressante: A Ciência da Fé), “quem requenta cultos religiosos pelo menos uma vez por semana tem 29% mais chances de aumentar seus anos de vida em relação àqueles que não frequentam”.

Evidentemente, não se trata de feitiçaria, intervenção divina direta, mas denota que as pessoas que são mais religiosas também cuidam mais do seu corpo atualmente. Elas estão olhando para si como servidoras de exemplo e templo para a  morada de um espirito de vida  santo.

Como posso amar aos outros como a mim mesmo se não cuido nem de mim? Mesmo que o leitor não seja adepto de uma religião e não faça orações, ele ainda assim pode entender que isso é lógico. Nesse ponto é bom frisar que não vi (em décadas de experiência, atividades e vida religiosa) alguém orar para a sua vida ficar pior e as coisas darem erradas. Sempre os vi buscando cura, vida melhor, bens e amores, muitos passando até da conta e fazendo negócio com Deus, mas tentaram com fé. E a fé é um direito de cada um para com seu deus, não uma imposição que se faz a outros, mesmo àqueles que se dirigem ao único Deus (como o faço).

 Não é intervenção divina a qualquer custo nem milagre fácil, mas o cultivo da fé que interfere na mudança de atitudes. Não é feitiçaria ou simpatia, mas encanamento com aquilo que podemos conseguir estimulando nossa mente e nosso coração espirituosamente.

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Lendo a mencionada pesquisa podemos dizer que a fé gera um comportamento diferenciado, pois “os religiosos apresentaram um comprometimento maior com a própria saúde. Também vão mais ao dentista, tomam de maneira mais correta os remédios prescritos, bebem e fumavam menos.” As religiões, via de regra, recomendam que seus fiéis deixem os vícios e não consumam bebidas de álcool e drogas. Nem sempre conseguem seus intentos, porém, não desistem!

Mas, não imaginemos recursos como sendo apenas os ligados à medicina (medicamentos, procedimentos cirúrgicos, etc.), novas tecnologias geradoras de conforto  (eletrodomésticos, visão, locomoção, proteção, etc.), mas os que podemos encontrar em nosso mundo interior, bastando para isso lançarmos mão de conhecimentos que nos são apresentados quotidianamente. Aí entra o poder da fé  a prática religiosa saudável  bem dirigida, aquela que nos leva ao exercício comunitário e a uma vida social d qualidade.

Uma pesquisa publicada na revista Nature (confira na íntegra > Evidence for a limit to human lifespan) afirma que a vida do ser humano tem um teto natural. Isso aparentemente contradiz os mais otimistas nas histórias e recentes conquistas médicas, que apontam a possibilidade de aumento constante, mesmo que lento da expectativa de vida, a ponto de um di atingirmos a imortalidade. Não seria isso também uma espécie de religião?.

Uma vida longa nem sempre é uma vida boa, mas, sim uma vida que seguiu uma jornada de realização de sonhos e propósitos significativos.

Antigamente, o cabelo grisalho ou branco era sinal de maturidade e respeito. Hoje, qualquer pessoa de aparência jovem pode ter cabelos brancos, sem que se apresente nela os sinais de sabedoria, respeito e maturidade.  No capítulo dezesseis, versículo 31, está escrito: “O cabelo grisalho é uma coroa de esplendor, e obtém-se mediante uma vida justa.”  Ora, vemos tantos portadores de cabelos grisalhos e brancos a produzirem erros e mais erros, inclusive corrompendo a nação.

Uma longevidade humana advém dos  benefícios obtidos dos avanços tecnológicos e dos hábitos que mantemos ao longo da nossa existência. Todavia, isso nos leva até certo ponto, pois nossa estrutura corporal, independente do que façamos, uma hora termina por se desgastar completamente. E quando estamos aparentemente desgastados e nossa mente continua brilhante, a nossa vida ainda o tem muito significado. É nessa fase da vida que podemos ser sábios e usufruirmos de mais momentos felizes.

PREOCUPAÇÃO E CUIDADOS COM A TERCEIRA IDADE EM DOIS ASPECTOS:

Primeiro, ter uma meta longa quando o número de anos a serem vividos ( eu, p.ex, em minhas palestras para a terceira idade falo jocosamente, conforme você pode ver aqui > Terceira idade, espero viver 127 anos, sendo que aos 60 pretendo dar uma festa aos amigos, para lhes dizer o que farei com os 57 anos restantes). Penso que quando queremos viver muito e bem devemos pensar positivamente em viver muito e bem. O que não devemos é proceder como se quem estivesse ao nosso redor tivesse pena de nós ou fosse obrigado a nos suportar, como se fossemos credores de muito mais do que já recebemos.

Viver é um barato e devemos tornar a vida uma joia preciosa do princípio ao fim.

Segundo, cultivar o desejo de morrer de velhice, enfrentando se preciso for dificuldades para ouvir, falar e manter algumas atividades fisiológicas. Jamais orar para não sofrer ou morrer repentinamente. Isso não me possibilitará me despedir da vida como quero. A isso chamamos de apreciação da parte escatológica da vida. São as últimas coisas ou dos derradeiros acontecimentos da nossa existência, das quais não podemos escapar, mas, sim, desejar chegar a elas) e não apenas as do  início.

Quando uma criança nasce todos, normalmente se alegram. No entanto, se ela não receber cuidados, atenção, proteção, educação e o devido encaminhamento nessa sociedade competitiva atual, a chance de se dar mal é grande.

Uma vida pode ser mais bem apreciada ao seu final, no passar o ultimo traço na conta da nossa existência. É aí que dizemos ao mundo que realmente valeu a pena a nossa vida. Por isso, eu não tenho medo de viver muito e já estou perdendo completamente o medo da morte. Noto nas pessoas um exagerado medo da morte e intensa preocupação com o seu viver. Há quem imagine que vida de qualidade seja sinônima de conforto, viagens, comida, orgias, bebidas, enfim, sem limites. No entanto, os sábios que envelheceram com qualidade nos dizem que quando se aprende a viver com o necessário, a servir com amor e a viver com mais alegria a vida ganha m sentido e nossa longevidade passa a ser sinônimo de felicidade.

Chego à conclusão que envelhecer é um barato que não é para qualquer um, como já postei nesse blog. Por isso, após tantos anos atuando e envelhecendo com os meu públicos, encorajo-me a deixar algumas dicas de como envelhecer feliz no mundo atual:

  1. Procure fazer de todas as suas idades cronológicas idades felizes.
    Quem viveu a primeira e a segunda idade de modo infeliz, dificilmente terá felicidade na terceira. Desse modo entendemos porque muitas pessoas consideram a velhice como estágio terminal de abandono, sofrimento e dor.
  2. Proceda com amor.
    O amor não é um sentimento apenas de troca com outras pessoas, mas o maior dom que podemos possuir. Com ele nós agimos com mais paciência e não desejamos levar ao outro a dor que não queremos suportar. Num cenário familiar de poucos filhos, porém de mais recursos educacionais, procure conscientizá-los para o fato de que poderão surgir dificuldades futuras, mas que o cuidado com você não deverá se tornar uma obrigação, mas uma atitude de amor.
  3. Não espere pelos filhos ou pelas políticas públicas.
    Aquelas pessoas que dispõem de condições financeiras para contratar bons cuidadores, planos de saúde eficientes e até um local para passarem seus últimos anos, messes ou dias, devem fazê-lo. Não se deve esperar que os filhos fiquem extremamente sensibilizados com nosso envelhecimento, pois um dia eles também podem nos considerar um estorvo. Já sabíamos que um dia íamos estar sós. Em fazendo assim, os filhos e familiares ficaram ainda mais sensibilizados a cuidarem de você. Lembre-se que as aposentadorias serão cada vez mais escassas e o déficit público está aumentando, ainda mais somado à incapacidade da máquina pública em gerar justiça social no campo da previdência social.
  4. Não espere a velhice chegar para preparar a terceira idade.
    Inicie o mais cedo possível os fundamentos e a construção da sua feliz terceira idade. Comece durante a mocidade. Por isso, a minha fala não está sendo dirigida aos mais velhos, mas aos que ainda têm cérebro e corpo para tomarem as providências enquanto ainda é tempo.
  5. Mantenha vivo o amor próprio.
    Esse amor próprio pode, dependendo de se praticar ou não uma religião, lhe ajudar a manter com mais saúde e melhores relacionamentos comunitários. A fé em seu Criador, praticando orações em favor da própria saúde, além do bem-querer aos outros, manterá seu espírito firme na busca da eternidade espiritual.
  6. Ingira muita água potável (de verdade).
    Sabe-se que durante o processo de envelhecimento a pessoa envelhece vai perdendo a sensibilidade à sede. Desse modo, não se esqueça de ingerir água no volume necessário (dois e meio a três litros diários), mesmo que não sinta sede para tanto. Isso fará com que seu corpo funcione melhor. Assim como água compõe dois terços do planeta, também compõe dois terço do seu corpo. Como deixar de fora do seu corpo um líquido tão importante em qualidade e qualidade?
  7. Sorria constantemente de tudo o que vale a pena.
    Devemos sorrir com sinceridade, mesmo que não sejamos correspondidos a altura. No entanto, também devemos cuidar para não darmos sorrisos sem sentido, apenas por sorrir. Isso passará a ser visto como uma tolice e não uma atitude positiva que expresse bom humor e saúde. É bom sabermos que o sorriso aciona mais músculos da nossa face que as carrancas, além de nos aproximar de pessoas agradáveis.
  8. Mantenha conversas intergeracionais.
    Não se furte em envidar esforços para conversar com pessoas mais novas e mais velhas que você. Isso não é para que elas lhe aceitem por um favor, mas para que você compreenda melhor o mundo em que elas vivem, de modo que no seu estágio de terceira idade sua mente já esteja treinada a todo o tipo de diálogo e expressões, bem como seu coração aceite conviver com emoções de gente mais tenra e de pessoas mais maduras.
  9. Continue pensando jovem.
    Apesar de lhe verem como mais velho, pois isso manterá sua mente mais atualizada, de modo que os outros se encantaram mais facilmente em conviver com você, e você também se interessará mais amigavelmente pelo mundo deles.
  10. Mantenha sua inteligência social e sensibilidade solidária.
    Seus relacionamentos com pessoas envolvidas na comunidade, seus sentimentos de amor ao próximo e suas contribuições onde você puder. Nossa vida é fruto da palavra pensada, das nossas atitudes voluntárias e dos nossos pensamentos. Portanto, pense bem, fale corretamente e aja como o seu coração, que pulsa por você sem que seja mandado.

Nunca desiste de estruturar o edifício da sua longevidade. Não é inteligente viver de modo ranzinza, a demonstrar que a velhice passe a significar aos  mais novos.

Há um ditado grego que diz: “As pegadas na areia do tempo não são deixadas por quem está sentado”. Então vá à luta mesmo que os passos sejam lentos, a resistência à subida de escadas seja  menor e a vista não enxergue tanto!

Continue dizendo ao mundo com seu modo de viver que viver vale a pena!
Tenha sempre em mente que nunca é tarde para se aprender!