Por Ainor Francisco Lotério

Por que os princípios cooperativistas são fundamentais?

Esquecer-se dos valores ou não levar em conta na governança cooperativa é correr o risco de se estar fazendo uma gestão temerária, uma vez que o próprio Direito Cooperativo respeita a doutrina cooperativa e seus princípios e valores internacionais.  Afirmamos sem medo de errar pelo fato de o Cooperativismo ser o único movimento socioeconômico do planeta que se desenvolve sob uma mesma orientação doutrinária, desde o seu surgimento na primeira metade do Século XIX (1844), em Rochdale, na Inglaterra.

Quando você imagina uma casa logo pensa no seu fundamento, pois se as estacas forem fracas ou as colunas pouco robustas a obra poderá ruir após estar pronta.

Assim também é uma Cooperativa, quando ela cresce muito aparentemente, porém os fundamentos doutrinários são fracos. Por mais que ela se preocupe em gerar resultados financeiros, se não se preocupar com educação, formação e informação, passando da adesão livre, seu primeiro princípio, o interesse pela comunidade, seu sétimo princípio, um dia ela cairá.

Em minhas longas andanças (confira minha carreira em fotos) constatei que toda instituição que não vive de fato sua missão, fundamentada em princípios e valores, um dia sucumbe na sociedade ou no mercado. Por isso, é importante que no compromisso com sua missão não deixem de manifestar a sua essência, aquilo que lhe dá identidade e autoridade.

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📚 II Encontro de Direito Cooperativo do Sistema OCEB

São os valores imutáveis do Cooperativismo que fundamentam os Princípios e sustentam qualquer cooperativa.

Segundo a Filosofia, valores é o conjunto de características de uma pessoa ou organização, que determinam a forma como a pessoa ou organização se comportam e interagem com outros indivíduos e com o meio ambiente.

Todavia, há um meio mais fácil e até musicado para se definir valores, como nos diz o saudoso cantor e instrumentista brasileiro de música nativista Cenair Maicá: “O que são valores, senhores, será o ouro, o seu tesouro, afinal? Não será que o ser humano sem engano é muito mais que o vil metal”. 

Assim como na família, o que se mantém qualquer instituição em pé são suas estacas e colunas, a construção bem fundamentada em solo firme. Mesmo quando houver um vendaval que arranque o telhado e as paredes, a estrutura não se abada. Isso é o que ocorre com cooperativas que sucumbem às crises enquanto outras, mesmo com dificuldades, seguem firmes. Naquele caso, os sócios não são envolvidos e educados nos valores e não praticam os princípios, relacionando-se apenas como um negócio e não como uma sociedade que trabalha o social, o econômico e o ambiental para o bem de todos, sem abrir mão da eficácia na produção de resultados positivos para todos os envolvidos (sócios e familiares, colaboradores e fornecedores, etc.).

Quando as condições do mercado, ambientais e de mercado mudam, os princípios – diversamente dos valores – são passíveis de revisão (atualização) na linha de tempo, o que, por sinal, já aconteceu algumas vezes no âmbito da Aliança Cooperativa Internacional (ACI). No entanto, os valores nunca mudam em função de crises, mas o são usados para justamente vencer as crises, não importando a sua natureza, tal como ocorre numa família, entidade ou nação.

O certo é que, antes dos princípios cooperativistas vem a primeira camada do alicerce, as raízes mais profundas, aquelas que extraem água e nutrientes mesmo em tempos de crises (hídricas, aqui entendidas como econômicas e sociais) que são seus valores, quais sejam:

  • Solidariedade (a comunidade é um bem comum e não um lugar para eu apenas explorar, e isso é responsabilidade de todos, o conjunto dos membros associados a um projeto comum);
  • Liberdade (não apenas a condição de ir e vir, de entrar e sair da cooperativa, mas a capacidade de dizer não ou sim e assumir essas escolhas até o fim, pois ser livre é uma tarefa difícil, quando podemos estar sendo levados para rumos que conscientemente não iríamos);
  • Democracia (não é apenas a possibilidade de se manifestar, votar e ser votado, mas o entendimento de que uma decisão majoritária é para ser cumprida por todos, sem discriminação e independentemente de se gostar ou não);

    Dinâmica na palestra “O Cooperativismo e seu poder de transformação na Sociedade”
  • Equidade (procedimento justo de acordo com a condição de cada um, tendo como base todos os outros valores);
  • Igualdade (que impede a segregação por qualquer condição diversa – econômica, de raça ou cor, de gênero, enfim, que o coloque em pé de igualdade dentro da mesma sociedade e comunidade);
  • Responsabilidade (um cooperativista observa primeiro os deveres para depois lembrar dos direitos, uma vez que ele, em igual proporção aos demais associados, é o dono da cooperativa, nunca se dirigindo a ela para explorá-la);
  • Honestidade (não mentir, não fraudar e não enganar, uma retidão que deve ser encarada como normal e não uma característica rara, pois quem é puro e honesto não se suja por nada);
  • Transparência (diz respeito à Cooperativa em si, onde cada sócio possa olhar de qualquer ângulo e ver tudo o que acontece, monde não haja segredo de contas, de negócios e muito menos de intenções maldosas);
  • Consciência socioambiental (não é possível que uma Cooperativa mantenha negócios e atividades que degradem o meio ambiente e os recursos naturais e, ao mesmo tempo, expresse que pensa nas futuras gerações e no desenvolvimento da comunidade). A palavra-chave aqui é SUSTENTABILIDADE, ou seja, o fazer de um modo que dure para sempre. E isso passa pelo econômico, o social e meio ambiente, lugar de assento da estrutura cooperativa.

São os valores acima mencionados que dão a estrutura de funcionamento diferenciado das Empresas Mercantis, que não são Empresas Comuns, a saber: Adesão Livre (aceitar o estatuto), Gestão Democrática pelos Sócios, Participação Econômica dos Membros (investir e usufruir), Autonomia e Independência (criar e recria, planejar e gerir), Educação (formação e informação), intercooperação (cooperação entre cooperativas) e Interesse pela Comunidade (sem o qual não se viabiliza). Veja mais detalhes no Portal da OCB-Organização das Cooperativas do Brasil.