Por Ainor Francisco Lotério

No passado, as terras eram baratas, havia muitos agricultores e famílias numerosas. Isso fazia com que sobrasse gente no campo e as cidades foram atraindo gente para o seu seio. Milhões de famílias se sentiram atraídos pelos sons, luzes, cores e promessa de felicidade prometidos pelas cidades.

O tempo passou e esse processo migratório, que gerou vários problemas sociais, especialmente nas periferias concentradas e até favelizadas dos grandes centros. A falta de estrutura foi sendo resolvida e a qualidade de vida no campo foi melhorada em muito. Hoje, ser agricultor pode ser chique, especialmente no caso da Agricultura Familiar, como é o exemplo de Santa Catarina, e muitos outros Estados brasileiros.

O que ocorreu foi o fenômeno do êxodo rural, uma modalidade de migração caracterizada pelo deslocamento de uma população da zona rural em direção às cidades, é um fenômeno que ocorre ocorreu e ocorre ainda em escala mundial. O Brasil foi afetado duramente por uma política agrícola de concentração das terras e fraco apoio, especialmente nalgumas etapas da nossa história, aos agricultores familiares.

O êxodo rural no Brasil desenvolveu-se na segunda metade do século XX e vem perdendo força nos últimos anos. Conforme dados do IBGE publicados no Portal Mundo Educação, podemos conferir que “entre 2000 e 2010, a taxa de êxodo rural foi de 17,6%, um número bem menor do que o da década anterior: 25,1%. Na década de 1980, essa taxa era de 26,42% e, na década de 1970, era de 30,02%. Portanto, nota-se claramente a tendência de desaceleração”.

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Vemos que em relação ao campo tudo foi mudando de maneira desordenada, de modo que o que parecia a realização de um sonho está se tornando, cada vez mais, numa ilusão, um projeto irrealizado. Os mais prejudicados, entendo, passaram a ser os jovens, hoje com mais formação do que os jovens do passado, porém mais desempregados.

O rural não é mais apenas produtor agropecuário, passando a agregar valor a bens que até então não eram de consumo. Neste contexto, o meio rural transforma-se, através da verticalização da produção (indústria rural) em um espaço cada vez mais heterogêneo e diversificado, porém, a juventude é a faixa etária mais afetada por essa dinâmica de diluição das fronteiras entre os espaços rurais e urbanos, associada, também, à falta de perspectivas para que vivam da agricultura.

Atualmente, a grande preocupação é com a sucessão rural, através do preparo dos jovens, filhos e filhas, conforme se pode ver na série de trabalhos e publicações que fizemos sobre esse tema: 🏞 Artigos e trabalhos realizados sobre Sucessão.

A Agricultura Familiar, setor da agricultura em que os gerentes ou administradores dos estabelecimentos rurais são também os próprios trabalhadores rurais, tem fundamental importância para o renascimento do rural. A importância econômica e social é elevada, pois contempla o maior número de produtores, como é o caso de Santa Catarina, que com apenas 1,3% do território nacional se posiciona entre os dez maiores produtores nacionais de alimentos.

O renascimento rural, seu modo de produzir, sua cultura e modo de vida são fundamentais para o desenvolvimento rural sustentável, fixando o homem à terra e evitando ainda mais os problemas da cidade. Notamos, cada vez mais, pessoas interessadas em atividades rurais, aquisição de sítios, adoção de técnicas, mas, sobretudo, o interesse pela produção orgânica de alimentos, o fortalecimento de cooperativas e a busca da vida de qualidade no campo. Isso vai fazer renascer o rural e fortalecerá a agricultura familiar. 

A falta de políticas públicas de assistência técnica, projetos de geração de renda, motivação, acesso à terra e valorização do homem do campo sempre foram sentidos por quem vivia e trabalhava na zona rural. Vale lembrar que ser chamado de colono era um tanto pejorativo, quase bullying. Eu mesmo, como filho de colonos agricultores familiares, muito fui chacoteado na escola da cidade por ser um “coloninho”.

Na atualidade, tudo está muito mais favorável para se morar e empreender no campo, as terras estão mais valorizadas (e também sofrendo exploração imobiliária), porém carecendo ainda de capacitação para gestão e desenvolvimento (sustentável, social e econômico) do seu espaço, de modo que contemple especialmente aqueles que mais produzem para a mesa, ou seja, os agricultores familiares.

Há muito mais ainda a se dizer, pois, se o campo não planta, a cidade não janta, e quem planta e cria tem que ter mais alegria. E isso se faz com o renascimento do rural e o fortalecimento da agricultura familiar.