Por Ainor Francisco Lotério

Escrever sobre a família na atualidade não é tarefa fácil, mas é necessário. Sobretudo, quando o tema está associando a uma cooperativa. Nesse caso, farei uma abordagem levando em consideração o cooperativismo no ramo agropecuário, sobre como aproximar a Família da Cooperativa. 

A família no mundo contemporâneo não requer mais uma abordagem exclusivamente tradicional. O problema é que ainda persistem em muitas cooperativas a visão de família unicamente tradicional, que rejeita tudo que é novo. Motivamos, nesse sentido, um pensamento de aceitação da diversidade e valorização de todos os filhos e filhas. Reconhecer as diferenças e a diversidade é fundamental para trabalhar essa questão hoje.

Veja também Uma Cooperativa de Sucesso vai além dos seus muros

As cooperativas fortes são aquelas que se interessam pela comunidade. Assim, promovem o seu desenvolvimento a partir das unidades familiares, mesmo sabendo que se trata de tarefa muitas vezes complicada.

Já que as cooperativas se iniciam nas famílias, apoiá-las e conquistá-las é seu papel e dever. Pois, uma cooperativa não é só aquilo que ela aparenta ser. Uma vez que, a sua essência é invisível aos olhos da lógica do mercado, mas visível pelas pessoas que a compõem.

Como relacionar família e cooperativa? 

Uma cooperativa é a soma de muitas famílias, e cada família é sinônimo de habilidades, talentos, dons, serviços e produção. Todavia, uma família quer mais do que produzir e entregar a sua produção. Ela quer participar de uma corporação que se preocupa em ajudar também os seus filhos e filhas. E isso é propriamente algo adequado e legal, conforme o Art. 4º, inciso X, da Lei do Cooperativismo (Nº 5.764, de 16/12/1971). Dessa forma, a Lei expressa: “prestação de assistência aos associados, e, quando previsto nos estatutos, aos empregados da cooperativa”. Isso, a meu ver nos leva à preocupação também com as famílias. Portanto, se a lei não prevê tão explicitamente como outra política pública, os estatutos da cooperativa podem prever mais adequadamente. Tendo em vista que há autonomia para tal (quarto princípio: autonomia e independência).

Uma cooperativa não se faz por si, nem com o esforço unicamente da diretoria e liderança. Ela se faz pela efetiva participação das famílias. Nesse sentido, através da motivação constante à participação e organização do quadro social com todos da casa é que a cooperativa se fortalece.  

Nos dias atuais, percebo que muitas cooperativas necessitam serem refundadas. Ou seja, elas devem retomar o processo de aproximação das células familiares para não enfraquecerem o seu quadro social. Quando as famílias não são envolvidas, os filhos também não o são e a sucessão tem mais dificuldade ainda de acontecer. Assim, percebe-se que o resultado disso é que a cooperativa passa a ser apenas mais uma empresa comum. Aquela que disputa preço e produto como outra qualquer, porém, deixa a sua verdadeira riqueza (os familiares dos associados) fora do processo ou com pouca atenção.

🤝🏻 Uma relação de aproximação e confiança 

As famílias de agricultores sentem necessidade dessa confiança e proximidade da sua cooperativa. Isso precisa ser sentido dentro dos seus lares e deve permear todas as atividades da propriedade.

Atraí-las de modo que se sintam não apenas mais uma família associada, mas a verdadeira dona, é o segredo para essa aproximação efetiva. De fato, “não é a cooperativa que possui associados, mas os associados que possuem a cooperativa”, uma vez que eles a formam e desenvolvem. No entanto, a família é que é o maior “patrimônio da vida”.

Pontos a serem considerados para atrair as famílias para as cooperativas 👇

– Realizar eventos focados em temas que interessam às famílias é essencial para as cooperativas. Promover, assim,  palestras, oficinas e cursos sobre relacionamento pais e filhos, sucessão familiar, vida de qualidade e felicidade, etc. Isso contribui quando está alinhado com os princípios e valores cooperativistas.

– Produzir conteúdo para as mídias sociais e informativos da cooperativa valorizando o tema família. A falta de informação é fator limitante da participação. A informação sobre seus projetos e ações diárias, levará ao comprometimento das famílias com as cooperativas.

– Organizar um projeto de sucessão e transferência de legado e patrimônio. Dessa forma, os filhos se sentem mais que herdeiros (aqueles que recebem a herança por disposição da lei). Sentem-se legatários (aqueles a quem se deixou um legado), assumindo a sua missão.

– As famílias devem assumir a responsabilidade na transmissão de valores aos filhos desde cedo. Mas, quais seriam esse valores? Solidariedade, ajuda mútua, honestidade, integridade, cooperação, entre  outros. Essa inteligência cooperativa vai facilitar a interação dentro das cooperativas e na sociedade.

– Apresentar às famílias os desafios da atualidade na educação e formação dos filhos. Nesse sentido, deixando transparecer a capacidade da cooperativa em poder auxiliar as famílias nesse preparo. A cooperativa é também uma escola de doutrina e educação, que se preocupa com a formação do seu quadro social. 

– A cooperativa deve elaborar uma pesquisa de campo no seio das famílias. Abordar assuntos e preocupações que mais tomam o imaginário e a vida real dos seus componentes. Com essa base de informações a equipe poderá elaboram um bom planejamento das ações a serem desenvolvidas em toda a base familiar.

– Envolver todo o corpo funcional, ou seja, a unanimidade dos colaboradores da cooperativa nessa retórica. O que importa é que todos estejam conscientes desse investimento nas famílias como algo prático. 

– Montar um núcleo ou comitê exclusivo para o trabalho com famílias. Dessa maneira, promove o conhecimento e o mesmo promove a participação. Quando existe esse movimento participativo um vai alimentando o outro, ou seja, a participação leva ao conhecimento e o conhecimento anima à participação.

Para concluir

Um sócio me falou: “Eu quero ver aumentar a nossa cooperativa. Eu entrego a produção, fruto da minha família. Eu não quero ser sócio de uma cooperativa que não envolve fortemente a minha família”.

Como eu ouço e vejo ser propagada as frases “boas coisas acontecem para quem espera” e que “grandes coisas acontecem para quem procura”, pensei em dizer que as melhores coisas são realizadas por quem se levanta e faz diferente! Então, vamos nos levantar e fazer diferente em favor das famílias no cooperativismo.